Pai que incentiva filhos a pedalar cria mais do que um ciclista

Nathalia Barboza/ agosto 13, 2017/ Mobilidade, Personalidades/ 0 comments

A culpa é do pai. Foi ele quem “alimentou o monstrinho”, que cresceu e manda logo recado para todo mundo saber: #vaoterquenosengolir . Esta é a filha do seu Clóvis. Maíra Regina Gomes, jornalista, tem transformado sua vida por meio do pedal.

Presente do velho, a magrela é seu xodó. “Minha bike é uma Caloi Adventure que ganhei do meu pai deve fazer já uns 15 anos. É de ferro, pesada, super antiga”, afirma. “Quando comecei a pedalar para o trabalho, meu pai até queria me dar uma bike dobrável, mas ela não dá segurança, é menor, não é tão resistente. Não vou trocar a minha velhinha. Me sinto segura e não vão me roubar”, completa. Para Maíra, sua bike continua útil e conveniente com suas 18 marchas. “Está tudo bem.”

A jornalista Maíra Gomes e sua magrela “ossuda”

Tá bem, Maíra. É aquela história: a magrela pode até ser “ossuda”, mas é uma querida!

Seu Clóvis, o incentivador

A paixão pelas bicis vem de longe. “Sempre adorei e usei bike. Meu pai sempre foi o grande incentivador. A primeira bike da minha vida foi ele quem deu. Ganhei num Natal. Já era usada, da minha irmã, mas meu pai fez uma reforma nela. Para mim, era como nova!”, conta.

Segundo Maíra, a vida no selim sempre acompanhou a infância. “Tenho primos, a maioria meninos. Minha irmã também foi uma grande referência, porque já andava sem rodinhas”, revela.

Como a caçula da família, ela se lembra da cena de tirar a rodinha da bike: “a sensação do vento na cara te dá uma liberdade muito grande. Eu pensava: Nossa, agora eu posso ir onde eu quiser!”.

Onde tudo começou; onde agora está

E pode mesmo.

Na adolescência da Zona Norte de São Paulo, ela conta que sempre que podia pedalava uns 20 minutos do Tucuruvi ao Horto Florestal. Gostava do caminho, ir e vir.

Já na vida adulta, ia de metrô desde o Tucuruvi até o Paraíso e pegava a bike que deixava no estacionamento de um conhecido na região da avenida Paulista. A partir daí, descia com ela a av. Brigadeiro Luiz Antonio até a agência de comunicação, no Jardim Paulistano. Isso já faz uns três anos.

Há um ano, ela entendeu que precisava ficar mais perto do Paraíso () porque ainda gastava muito tempo no trajeto até o trabalho, que agora é no Itaim Bibi. Quem vai dançar (fon fon!) rapidinho é o carro. “Vou vender.”

Para que um carro na garagem se se pode ter um Uber Bike, hein!

Na rua, no dia a dia, aprendeu que nem tudo é fácil quando se está numa magrela. “Você tem de ser muito destemida. Recentemente, um carinha me falou: olha, você é corajosa de andar por aí de bike! É perigoso. Você é mulher, é diferente. Respondi: não é diferente por ser mulher. Tem muita gente [motorista] no telefone celular, ninguém está nem aí para você. Depois que comecei a pedalar, me transformei em uma motorista muito mais prudente!”, conta.

De fato, ela define o trânsito de São Paulo como “uma maluquice”. “As pessoas não te enxergam na direita. Você tem de andar como se estivesse em uma moto, no meio das faixas, e sair antes de abrir o farol. É um desafio diário. Toda vez que chego, suada, de tênis, dou graças a Deus!”

Equipada

Para enfrentar a “maluquice”, ela não abre mão dos equipamentos básicos: só anda com capacete, farol, lanterna, reflexivos no pneu. Também trocou o canote por um maisconfortável (com mola), o guidão e as manoplas. “O banco era fininho demais, me machucava a virilha. Fiquei usando bermuda por muito tempo, mas voltava assada. Aí decidi trocar o banco”, justifica.

Embora seja desafiador, o trajeto hoje nem é tão longo: são 5 km até o trabalho. Mas a paixão pelo pedal pegou mesmo e, no final de semana, a bike não fica encostada. Onde ela vai acaba encaixando um passeio de bike, dentro e fora de São Paulo. “Faço exercícios com ela; nem que seja uma volta no Ibirapuera. E faço trilhas. Em setembro, vou para Maresias, onde tenho primos, e vamos fazer algumas trilhas curtas”, planeja.

Bem, agora “está rolando” um sonho de fazer o caminho de Santiago de Compostela. Dá-lhe, garota!

Ralada e experiente

A vida em trilhas tem deixado marcas… físicas e sentimentais. Em 2009, relembra Maíra, ela foi para Monte Verde (na divisa entre São Paulo e Minas) e saiu de bike numa trilha com o ex.

“No meio da trilha, no meio do nada, cai e abri o joelho. Estava bem feio. Do nada, parou um ônibus na estradinha embaixo da trilha e meu ex pediu ajuda. O motorista disse que poderia me levar para o hospital. Quando entrei, o ônibus estava lotado de boias-frias, só homens. Foi uma grande experiência de vida! Os caras fizeram todos os primeiros socorros. Quando cheguei ao hospital, já estava com curativo”, descreve.

Para mudar o mundo

Maíra é jornalista, certo? E como muitos outros da sua profissão [eu mesma, confesso], tinha o sonho de mudar o mundo. Aprendeu bem mais do que isso…

Em uma postagem recente no Facebook, publicou uma história incrível, de dar orgulho em qualquer cicloativista. Veja só:

“Fiz jornalismo achando que eu ia mudar o mundo. Em 8 anos de TV percebi que eu poderia mudar a mim mesma e olhe lá. E foi o que fiz, mudei de área, de casa, de opinião e há um ano uso a bicicleta como meio de locomoção.

Os desafios são diários!!!

Onde moro a negociação é intensa, mas hoje me sinto confortável em ter conquistado o direito de deixar a bike na vaga do meu carro e não mais num quartinho trancafiado com chave na portaria.

Já no prédio onde trabalho, uma região com muitas executivas e engravatados, a conversa foi mais tensa. Aos poucos fui garantindo um lugar na garagem, fiz amizade com o porteiro, provei que a gratuidade é uma regra e que motoristas, manobristas e ciclistas podem conviver juntos.

Há alguns meses os meninos do outro andar vieram conversar comigo sobre vir de bike. Benefícios e dificuldades.

Hoje ao chegar no estacionamento, não me contive e tirei a foto da felicidade. Minha bike ganhou vários parceiros e eu esperança.

Bora reivindicar um bicicletário, minha gente!!! Dá pra mudar o mundo sim e é bem facinho.”

A parede precisa de manutenção, mas agora a Caloi da Maíra (com um alforge) tem bastante companhia na garagem do trabalho

Ao analisar o que aconteceu, Maíra diz que chamou a atenção o fato de todo dia algum usuário do prédio comercial a observar um pouco. Foi quando um destes perguntou se ela pagava ou não para estacionar. “Expliquei a eles que não se cobra para parar a bici. Mas a batalha é grande. Onde os caras do Itaim vão colocar as bikes se não tem um bicicletário? No muro que está caindo, claro!”, retruca.

Para ela, a luta por espaços tem que vir sempre de uma boa conversa. “Com jeitinho, a gente consegue. No meu prédio também foi assim e fiquei muito feliz! Olha acho que estou lançando moda!”, comemora.

Sim, sim, Maíra. Está! E estamos orgulhosos de você. E do seu pai, que fez o papel lindo de criar base para estas atitudes!

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