Sem Raça Definida: “o demônio está nos detalhes”, garante o melhor artesão brasileiro de selins

Nathalia Barboza/ fevereiro 19, 2017/ Personalidades

Alta capacidade de concentração, muita paciência, incrível habilidade manual e um bom gosto estético invejável. No mundo dos selins e guidões customizados, estas características juntas têm um nome: Zé Mário! Ou José Mário Silva Filho, o artesão dono da grife Sem Raça Definida (SRD).

Com vocês, Zé Mário, artesão de selins

Considerado o melhor artesão de selins e fitas de guidão do país, sua fama é tamanha que já lhe rendeu clientes no país todo e na América Latina. É mais ou menos assim:

 

 

Zé Mário falou com exclusividade em seu ateliê para o Minha Magrela. Abriu seu coração, contou histórias da sua vida, falou da paixão que tem pelo ofício e pelas magrelas que passaram por sua vida.

Em sua simplicidade, ele se mostrou ao mesmo tempo que extremamente humilde por suas “limitações técnicas” muito orgulhoso de sua curta trajetória, que começou oficialmente apenas em 2013, com a fundação da SRD. “Perdi as contas de quantas vezes já me cortei com estilete e muitas vezes me frustrei com algo que não consegui fazer”, confessa.

A diferença dele é esta: não desiste. Corre atrás. Vai buscar informação, observar os mais experientes, aprender técnicas novas, testar, errar, aprimorar, realizar.

Nesta jornada, conta, seu maior presente foi ter adquirido uma capacidade imensa de concentração, tão fundamental a quem trabalha horas a fio com as mãos, em delicados ou viris movimentos, com instrumentos de corte, tesoura, estilete, agulha… “A graça toda do meu ofício não está exatamente em fazer uma peça, mas sim em melhorar a cada pequeno detalhe dela”, diz.

“A gente acaba levando para a vida a capacidade de concentração que vamos adquirindo no dia a dia. Como artesão, aprendi a ser mais calmo e a administrar melhor meu tempo. Mesmo depois de parar para atender meus clientes, a cabeça volta rápido para o trabalho. Não perco o foco. Sou capaz de ficar três longas horas atento a uma costura que tenho de fazer”, revela.

Detalhe de design de um selim de couro SRD

“A graça do meu ofício não está exatamente em fazer uma peça, mas sim em melhorar a cada pequeno detalhe dela”

Amante das magrelas desde sempre

Zé Mário se diz totalmente imerso no mundo das bikes. Pudera. Ele é um #bikelover.

“Minha primeira bici foi uma Berlinetta que tinha sido do meu irmão. Eu tinha uns 6 anos. Desde muito cedo eu era doido por bicicletas e tinha curiosidade de mexer nelas e de pedalar para cada vez mais longe. Dois ou três anos depois, ganhei uma bike bem detonada que eu mesmo fui recuperando as peças estruturais. Quando era moleque, uma speed era muito cara. Eu não tinha dinheiro para comprar uma nova, e nem para customizá-la”, lembra.

Mesmo assim, passou a infância toda em cima de bicicletas.

Aos 13 anos, a paixão por pedalar até cansar produziu uma historinha saborosa: “Eu morava em Guarulhos e vivia de bike na rua com meus colegas. Um dia, menti para a minha mãe que iria só na praça com meu primo de 15 anos de idade. Fomos até o Ibirapuera – 23 de Maio e tudo! Minha mãe teve um ataque quando soube, alguns dias depois. Quem se deu bem foi minha irmã, que ficava me chantageando para não contar nada!”.

A sina com bikes de segunda mão durou bastante tempo e ajudou a moldar seu lado “fuçador” do artesão. Já depois de casado, ele descobriu que o sogro guardava uma Caloi 10 anos 70 “toda zoada” em casa. Foi logo falando: “É minha!”

Foi aquela coisa de fuçar para ver o que dava. Resultado: ele a considera seu “marco zero”.

“Mas eu ainda não entendia nada de peças e nem tinha noção dos preços. Já usava a internet e adorava ver os modelos personalizados no Pinterest. Um dia que resolvi ir em uma loja ver o preço dos selins. Encontrei só uns pretos de borracha e pensei: são feios! Acho que posso trocar o forro do meu selim do jeito que eu quiser”, recorda. E ele queria isso:

O “vira-latas” queria mesmo é ser um “puro sangue”. O jeito foi botar a mão na massa: comprou numa tapeçaria um pedaço de couro…

Aí é que começou a brincadeira… “A primeira tentativa ficou horrível, mas sobrou curiosidade, então me vi enlouquecido buscando referências de design e tutoriais que me ensinassem novas técnicas na internet.”

Segundo ele, foi aí que seus amigos começaram a gostar do que ele vinha produzindo e fizeram os primeiros pedidos. “Eu dizia a eles que era só um hobby, mas chegou um outro pedido, e outro, e outro de quem eu nem conhecia”, lembra.

Ele fundou a Sem Raça Definida, passou a postar fotos do meu trabalho nos meus grupos de Facebook e a vender este trabalho.

Nesta época, ainda tinha um emprego na área de publicidade e improvisava uma oficina no quarto de bombas, no subsolo do edifício onde morava. Trabalhava o dia todo fora e, de madrugada, confeccionava as peças”.

Quando ele finalmente pôde se mudar, foi para um apartamento de dois quartos. Um deles virou ateliê. “Fui demitido em meados de 2014. Mas foi quando a demanda pelos kits aumentou e este lado artesão me ajudou a enfrentar o susto de ter de pagar as contas”, confessa.

 

O autodidata e os “pequenos malditos detalhes”

“Sou um autodidata. A marca SRD vai crescendo conforme vou desenvolvendo minha técnica. Hoje sei que são os pequenos malditos detalhes que valorizam realmente meu trabalho de artesão”, diz Zé Mário. “Estou investindo em novos equipamentos, para facilitar alguns processos, mas o que tenho de melhor é o ‘feito à mão’.”

 

“Sou apaixonado por coisas feitas à mão e por matérias-primas bem básicas, como couro, madeira e aço. Estou convicto de que a costura artesanal fica sempre melhor que a feita à máquina. Arrebenta os dedos; são horas apertando uma agulhinha fina para furar o couro, mas

o resultado é lindo, fantástico”, garante.Segundo ele, poucos hoje valorizam este trabalho. “Infelizmente, este trabalho é muito caro e demorado. Uma bolsa, por exemplo, para sair perfeita, pode levar um dia inteiro de trabalho. A equação de o quanto você sabe de técnica com o quanto os clientes querem pagar não bate”, lamenta.

“São os pequenos malditos detalhes que valorizam realmente meu trabalho de artesão.”

Até o trabalho de garimpar máquinas e ferramentas que lhe ajudem é complicado. “É muito difícil de achar a ferramentaria ideal. Quando encontro, é pelo triplo do preço lá de fora”, reclama.

Para piorar, ele opta pela pele tratada com tanino, que é duas vezes mais cara que a tingida de fábrica, cujo processo industrial carrega metais pesados, o que só agrava as críticas em termos de sustentabilidade que o couro recebe – sem falar nas denúncias de maus-tratos no abate dos animais.

Segundo Zé Mário, o couro sintético não é uma opção porque sua produção “não é nada limpa” e seu descarte, muito mais rápido, pela baixa qualidade do produto.

Mas ele já vê uma luz no fim do túnel: “Ouvi dizer de um ‘couro’ feito de fibra de abacaxi que teria as mesmas propriedades do couro natural. Assim que chegar ao Brasil, vou adotar.”

 

Calma, tem clássico pra todo mundo!

Segundo Zé Mário, são três tipos distintos de clientes que procuram seus produtos, mas todos estão em busca de um visual exclusivo: “O mais comum é para fazer o restauro do selim (ou da própria bike como um todo – seu ateliê ocupa o mesmo endereço do Studio Vila, de Rodrigo Vilas e Daniel Neves), mas há os que querem só customizar suas bikes urbanas ou fixas”.

O estilo do SRD é mais clássico, vintage. Muito couro marrom, creme, caramelo, rosa claro, um pouco de high end [= altíssima qualidade, bem acima da média]. “Esta é sua identidade e o que o mercado quer. Mas não abro mão de que a peça seja ao mesmo tempo linda e confortável de fato”, garante.

Pessoalmente, hoje, Zé Mário se diz estar mais próximo do estilo adventure (bicicross) e ser apaixonado pelo ciclismo de longa distância (bike touring).

Suas bikes acabam servindo de pista de teste para as novas criações. “Elas servem de cobaia”, revela. Muitas das novas modelagens vêm da tapeçaria automotiva. “Os carros são fonte de inspiração para alguns desenhos”, admite ele, que já copiou o estofado do BMW 1976 para um cliente.

No dia desta entrevista, ele finalizava uma bolsinha verde de guidão. “Ainda falta muito aprimoramento nos acabamentos, mas o modelo é bonito, não acha?”, perguntou.

Sim, é linda! E ficou ainda mais bacana nesta Aquilon vintage. Veja só:

 

Quem são suas magrelas

Zé Mário pedala em três modelos diferentes. Tem “uma speed montada para os momentos de aventura”, uma autêntica Cardoso Cycles e, a menina dos olhos, a francesinha vintage Aquilon, que você viu na foto acima. “Quase impossível datar de que ano é, porque só achei duas ou três imagens parecidas na internet. Pelas características, é do começo dos anos 70.”

A Cardoso Cycles. Foto: Marcelo Oséas Silva

Cardoso Cycles em ação: touring

A francesinha Aquilon veio de Portugal

A história por trás desta bike é interessante. “Um amigo português viu a bicicleta em um site de usados e me alertou de que o preço era ótimo. Mas minha mulher não gostou da ideia e me proibiu de comprar… Deve ter dado remorso, porque é uma puta bicicleta, e meu aniversário estava perto. Ela pediu ao meu amigo que comprasse a bike e a embarcasse para o Brasil. Lindo, né? Nem acreditei! Ganhei a Aquilon de presente!”, conta com um sorrisão no rosto.

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